Interno – Uma música

Eis uma música que fiz com um software de criação de músicas. Ela é apenas o resultado inicial do meu aprendizado.

O Lago

O Lago. Para —

Edgar A. Poe

tradução: Josenildo Marques

No verdor juvenil eu adorava
Ir a um distante lugar que amava
E ao qual amor dei mais que pude —
Pois tão sublime era a solitude
Do lindo lago com rochas cercado
E altos pinheiros por todo lado.

Mas quando a noite jogou seu manto
Sobre o lago e sobre todo canto
E um vento místico surgia
Murmurando em melodia —
Então — ah, então com olhar vago
Vi o terror do solitário lago.

Mas tal terror não era temor
Ele era um deleitável tremor —
Um sentimento não cristalizado
Me ensinaria seu significado —
Não o amor — embora estivesse atado.

A morte, naquela onda venenosa,
E em seu golfo uma cova aquosa
Para ele que consolo só podia tirar
Daquele solitário sonhar —
Cuja alma fazia, com todo afago,
Um Éden daquele sombrio lago.

The Lake. To —

Edgar A. Poe

In spring of youth it was my lot
To haunt of the wild world a spot
The which I could not love the less —
So lovely was the loneliness
Of a wild lake, with black rock bound,
And the tall pines that towered around.

But when the Night had thrown her pall
Upon that spot, as upon all,
And the mystic wind went by
Murmuring in melody —
Then — ah then I would awake
To the terror of the lone lake

Yet that terror was not fright,
But a tremulous delight —
A feeling not the jewelled mine
Could teach or bribe me to define —
Nor love — although the Love were thine.

Death was in that poisonous wave,
And in its gulf a fitting grave
For him who thence could solace bring
To his lone imagining —
Whose solitary soul could make
An Eden of that dim lake.

Um sonho dentro de um sonho

Um sonho dentro de um sonho

Edgar Allan Poe

Tradução: Josenildo Marques

Aceite um beijo de adeus!
Agora deixo os olhos teus
Com muitos dizeres meus —
Não erra quem diz que disponho
De meus dias como um sonho;
Se a esperança foi embora
Num minuto ou numa hora
No escuro ou numa visão
Foi todo o passado em vão?
Tudo que vejo ou suponho
É um sonho dentro de um sonho

As ondas vêm martelar
As rochas perto do mar
Enquanto a mão tateia
Grãos dourados de areia
Tão poucos! E já se vão
Pelos meus dedos escapam
E enquanto choro naufragam
Deus! Por que não consigo
Mantê-los a salvo comigo?
Deus! Não posso salvar
Nenhum do inclemente mar?
É tudo que vejo ou suponho
Um sonho dentro de um sonho?

A Dream Within A Dream

Edgar Allan Poe

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

Vivamos, minha Lésbia, e amemos

Vivamos, minha Lésbia, e amemos

Catulo (84-c.54 a.C.)

Tradução: Josenildo Marques

Vivamos, minha Lésbia, e amemos.
Os buchichos desses velhos austeros
Não nos servem mais do que um centavo !
Pois o sol se vai e depois se volta;
Mas quando cessar nossa breve luz
Será a noite uma eterna dormida.
Me dê mil beijos e depois mais cem.
Então, outros mil, depois outro cento
E mais mil e depois outra centena.
Então, com tantos beijos de sobejo,
Guardemos a soma e confundamos
Os invejosos que podem querer
saber o tanto de beijos beijados.

Vivamus, mea Lesbia, atque amemus

Catulo (84-c.54 a.C.)

Vivamus, mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!
Soles occidere et redire possunt;
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

Comentários

Há muitas traduções desse poema e há algum tempo queria fazer a minha.
Catulo escolheu o endecassílabo como esquema métrico e, paraacompánha-lo de maneira similar, escolhi o decassílabo. Ou seja, todos os versos têm dez sílabas poéticas. Outros tradutores, como o Haroldo de
Campos, optaram por não reproduzir esse esquema métrico e fizeram uma tradução em vers libre.
Tentar responder ao original com os mesmos recursos fônicos é sempre um desafio. Exemplo:

rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!

De outra maneira, poderia ser representado assim:

rumorESque SEnum SEveriorum
omnES UniUS AEStimemUS ASSIS !

O jogo com o som sibilante e a consequente ressonância sugere o fofocar
daqueles que são contra o amor do casal e estão falando pelas costas.

Para recriar isso, tentei:
OS buCHiCHos deSSeS velhoS auSteroS
Não noS Servem maiS do que um Centavo !

Para sugerir a idéia de retorno do sol e início de um novo dia ou época,
tentei o seguinte:

POIs o sOl se vai e depOIs se vOlta;

O tema da morte talvez tenha ficado menos explícito na tradução, porém
acredito que ficou bastante sugestivo.

Mas quando cessar nossa breve luz
Será a noite uma eterna DORmIDA.

Numa leitura não-linear…
O poema expressa também a idéia do CARPE DIEM. No geral, pode-se dizer que parece que foi escrito ontem. Algumas coisas não mudam, não é mesmo!?

Sozinho

Sozinho

Edgar Allan Poe

tradução de Josenildo Marques

Nos tempos de infância nunca vi
Como os outros — nunca vivi
Como os outros — nem pude pegar
Paixões de uma fonte vulgar –
Dela nunca pude revolver
Minha tristeza — nem comover
Meu coração no mesmo caminho –
E tudo que amei — amei sozinho –
Na minha infância — no amanhecer
De meu temporal vivaz — vi nascer
No bem, no mal e na minha sina
O mistério que ainda me fascina –
Das torrentes ou das fontes –
Do cimo vermelho dos montes –
D sol que em voltas me envolvia
Num outono dourado, noutro dia
Da luminosidade do céu
Passando por mim ao léu –
Do trovão, do temporal que se armou
E a nuvem que se transformou
(Quando o resto do Céu azulava)
Num demônio que me olhava –.

Alone

Edgar Allan Poe

From childhood’s hours I have not been
As others were — I have not seen
As other saw — I could not bring
My passions from a common spring –
From the same source I have not taken
My sorrow — I could not awaken
My heart to join at the same tone –
And all I lov’d — I lov’d alone –
Then – in my childhood – in the dawn
Of a most stormy life – was drawn
From ev’ry depth of good and ill
The mystery that binds me still –
From the torrent, or the fountain –
From the red cliff of the mountain –
From the sun that ’round me roll’d
In its autumn tint of gold
From the lightning in the sky
As it pass’d me flying by –
From the thunder and the storm

And the cloud that took the form

(When the rest of Heaven was blue)

Of a demon in my view

cessou o mar…

cessou o mar
agora soa a terra
mareada de sol
de seca seara
sem norte forte
sob um azul mudo

caminho espinhado
gira-sol na mira do seco
retirante das palavras
sem rimar amor com dor
na doçura dos açúdes

basto coração lavrado
em pedras de cantaria
tabas e senzalas
batucando tanto quanto
o tambor do aberto distante

lido como jagunço letrado
entre o sentido e pensado
luto com finada palavra
rebelde gentio que rebela
o vil metal do significado

na selva selvagem de pedra
concreto todo sentimento
marginal de uma justiça laica
seguindo sonhos insones
com uma lira obtusa
nu escrito preferido

Josenildo Marques